A fantasia no mundo infantil

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pag08Por: Randiê Cibele Scalioni Siqueira

- Tia, minha mãe me falou que se eu ficar boazinha o Papai Noel vai me dar uma boneca bem grande..... – suspiro longo da criança – Tia, Papai Noel existe?

Quem nunca se deparou cm um diálogo parecido com esse?

Culturalmente falando, o mundo da criança é construído pelos adultos, muitas vezes por fantasias e personagens imaginários para que sua vida tenha mais graça, encanto ou expectativas positivas. Às vezes, seres imaginários também são inventados como forma de chantagem e medo, de acordo com o interesse de quem conta.

Nestas horas surgem o homem do saco, a cuca, a loira do banheiro e outras bobagens que só servem para criar um temor desnecessário e muitas vezes camuflar a falta de autoridade dos pais (ou educadores). “Ah, vai lá fora pra você ver! O homem do saco te pega!

Essas criações fazem parte da cultura e do folclore de muitos povos: as crianças celtas temiam as bruxas, os pequenos franceses temiam o lobo mau, as crianças indígenas temem o boitatá, e nossos pais (e nós mesmos) tiritávamos de medo da cuca ou do bicho papão. Mas, por ser tão usual, esta prática é válida?

Acho que depende. A fada dos dentes, criatura tão inofensiva e generosa sempre traz dentes novos para as crianças. Mas nem sempre o Papai Noel traz o tão sonhado videogame. E como explicar o fato do filho do vizinho, tão malcriado e cheio de vermelho no boletim  ganhar exatamente o que pediu?

A fantasia, os seres imaginários devem co-existir no mundo infantil com uma boa dose de bom senso e prudência. Os contos clássicos (Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, e outros) são benéficos porque depois de despertar o medo ou suspense chega a um final feliz que leva a criança a criar o hábito de cultivar a esperança e a compreender que por pior que seja uma situação, muitas vezes, ela passa.

O que não podemos, nós, pais e educadores, é criar alegorias e personagens que tragam receio em nossas crianças. Primeiro porque o mundo já está cheio de perigos reais e muito mais urgentes que um bicho papão, como uma tomada elétrica destampada ou o  risco de um atropelamento. Segundo porque afetam a auto-estima da criança, que se acostuma a ser controlada por um medo qualquer. Hoje é o medo do homem do saco, amanhã é de não ser popular entre os colegas, depois de não passar no vestibular, de perder seu relacionamento... E por último porque temos que ser amados, queridos,  respeitados, odiados e perdoados pelas nossas atitudes positivas e diante da vida. “Não vá lá fora agora, está muito frio e você pode ficar doente.”.  “ Você é um bom filho, mas o Papai Noel está sem dinheiro para comprar vídeo game para todo mundo este ano. Ele vai entregar para quem pediu primeiro. No ano que vem será a sua vez.”

Muito feliz é a saída que os Correios estão usando: informam que o Papai Noel só entrega os brinquedos clássicos. Sonhos de consumo da modernidade como MP3 , vídeo game, DVD e brinquedos eletrônicos não fazem parte da lista do Papai Noel. Estes devem ficar mesmo é por conta dos pais.

Pequenos truques podem fazer com que a realidade e o imaginário convivam, sem que nós, adultos ou crianças percamos a maior de todas as fantasias: ser feliz!

 

Randiê Cibele Scalioni Siqueira é Professora de Educação Infantil da Rede Municipal de Pouso Alegre, há 20 anos

Diretora do C.E.I. Pequeno Príncipe - Bacharela em Direito - Graduanda em Pedagogia pela ULBR

 

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