Há tempos que nos esquecemos de nós mesmos...

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Há quanto tempo não escrevo à mão, com caneta e papel, sentando em uma escrivaninha com uma luz baixa que retrata a folha branca e espia a caneta se mexendo e dançando em meio a tantas palavras silenciosas que podem gritar a qualquer momento? Acho foi a era da tecnologia e da informática que me fizeram abrir as mãos, estalar os dedos e pregar meus olhos em milhares de cores de um monitor que clareia o quarto, agora.

Já faz tempo que não me sento na calçada, em frente de casa, com alguém para contar histórias, pensar na vida e dar boas risadas. Os vizinhos são nossas casas ou apenas os simples e obrigatórios cumprimentos que nos damos aos sairmos da garagem com o carro, apressados para o trabalho e para as tantas outras obrigações do dia. Talvez tenha sido a forma com que o ser humano, ou a maioria deles, foi obrigado a escolher para viver na selva de pedras. Enfiados em casa, encontram o que quiserem e quem quiserem para satisfazer suas necessidades, seus anseios, suas angústias e a solidão que os assombra por dentro. Estamos a um clique de qualquer um, de qualquer lugar e de qualquer coisa no mundo.

Há tempos não sentamos à mesa para tomarmos café da manhã ou para jantarmos, juntos. Os irmãos, os pais e até mesmo os avós, agora parecem tão solitários e silenciosos. Tão independentes, autossuficientes e impacientes. Ninguém mais precisa aprender nada de ninguém. Ninguém mais precisa ouvir nada de ninguém. Seus, e tão somente seus, são seus planos, suas ideias, suas opiniões e suas vidas. Meus, e tão somente meus, são meus amigos, minhas namoradas, meus negócios e minhas moradas. Pode ter sido a televisão que fez com que nos sentíssemos bem acompanhados, sozinhos. Talvez, ela tenha nos feito sentir como egoístas ou donos do mundo ao sentarmos de frente para ela e de posse dos vários controles remotos, que em mãos estão agora, nos fazem calar a boca, pregar os olhos na telinha e nos esquecer de qualquer outra pessoa que esteja por perto. E que não ousem interromper a atenção que dedicamos fiel e totalmente à novela da vida alheia que nos preenche de sensações ilusórias.

Já faz tempo que não saímos numa noite estrelada para darmos uma volta a pé pela rua e sentarmos num banco de uma praça qualquer para jogarmos conversa fora ou questionarmos o mundo todo com a mais singela e ingênua curiosidade que costumávamos ter. Não namoramos mais no portão. Não admiramos a beleza de uma lua cheia. Não. Não dormimos mais com as janelas abertas. Não nos recolhemos antes de checarmos se todas as portas estão realmente trancadas. Pensamos por onde andar e como vamos voltar. Ouvimos passos ou qualquer barulho e já não sabemos mais diferenciar o que vem da nossa cabeça e o que realmente pode estar acontecendo. A coragem lhe diz para sair da cama e ir até lá verificar o que pode ser. O medo lhe implora para abraçar o travesseiro e parar de respirar por alguns segundos. Na verdade, foi a violência lá de fora que nos tornou assim. Violência lá de fora que começa aqui dentro. A criminalidade que toma conta das cidades, dos morros, das baixadas, das vilas, dos becos, das ruas, das avenidas e de nossas casas. Foi a falta de controle que controlou as nossas vidas. Foi a confusão que fizeram. Não souberam diferenciar usuário de traficante. Necessitado de ladrão. Política de corrupção. Covardia de diversão. Fizeram tudo e nada se fez. Refizeram tudo e nada mudou. Confundiram tudo e nada adiantou. A moral não se dá mais com a ética. Os costumes não se dão com a legislação. Nem mesmo a realidade com a ilusão. Eles acham que sabem o que estão fazendo. Talvez não. Mas não importa. Nós também achamos que sabemos de tudo e adoramos discutir esse mesmo tudo em mesas de bar. Falamos sobre política, maconha, mulheres e futebol. Temos a solução; até chegarmos em casa e fecharmos os olhos para levantarmos tarde no outro dia com fome, sede e uma tremenda dor de cabeça.

Há tempos ouvi dizer que o futuro ia chegar e as coisas iriam melhorar. Deve ser nossa memória fraca e todo o pão e circo que sempre nos dão que fizeram de nós, há tempos, seres humanos de verdade. Uma multidão. Números. Nossa nação.

Eduardo Fortes - Bacharel em Direito, Empresário, Músico e escritor.

www.myspace.com/dufortes - E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

 

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